domingo, 26 de abril de 2009

Deus e o pipoqueiro



No último feriado, eu andava pela avenida Anhanguera, no centro da cidade de Goiânia, achando ruim o calor forte e achando ruim mais um monte de coisa. Foi quando avistei um pipoqueiro. Eu faminto e o comércio todo fechado. Eu turista e ninguém para pedir informação. Então, não teve jeito, na falta de comida de verdade, me rendi à pipoca. Não que eu seja fã dessa "iguaria", muito pelo contrário, mas fome é fome, e ponto final.


- Uma pipoca, por favor.


- A alma é visível ou invisível?


Eu pensei que o pipoqueiro não havia entendido o que eu falara. Como não custa nada repetir e, se possível, ser mais didático.


- O senhor pode me vender um pacote médio de pipoca?


- Existe vida após a morte?


Aí a situação se complicou. O pipoqueiro parecia estar vivendo num outro mundo ou estar me gozando, sei lá.


- O senhor não quer me vender a pipoca não?!


- Existe alguém mais poderoso no universo que o próprio homem?


Então, eu desisti e virei as costas para o ambulante metido a filósofo e sai andando. Mas aí o pipoqueiro gritou.


- Moço, o senhor quer com manteiga ou sem?


Eu respirei fundo. Lembrei da fome e do comércio fechado. Voltei em direção ao indivíduo com meu sorriso amarelo no rosto.


- Com manteiga, por favor. No que de pronto ele respondeu de forma bem séria.


- Saindo uma pipoca média, com manteiga, e caprichada.


Enquanto ele mexia a pipoca, antes de colocá-la num pacote, comentou estar pensando muito em Deus ultimamente. Eu lhe dei outro sorriso amarelo.


- Que bom.


O homem, no exato momento, perguntou qual era minha religião e, antes que eu tivesse tempo de resposta, voltou a falar.


- Não tem importância. Todos caminhos levam a Deus, né?


O senhor pipoqueiro, de cabelos brancos, como neve, e o rosto bastante bronzeado, mexia a pipoca para um lado e para o outro, mas nada do meu pacote ser entregue. Pensei em desistir de novo, mas, de repetente, percebi que o letreiro da loja, também fechada, atrás do pipoqueiro, marcava Além Da Vida, e com letras estilizadas – um letreiro bonito. Foi aí que relaxei e esperei o cara parar de mexer aquela pipoca e servir a minha janta. Sim, caro leitor amigo, aquela pipoca com manteiga seria minha janta de sexta-feira à noite.


- Você acha que Deus criou o mundo em 7 dias mesmo?


O cara era estranho, mas, como de perto ninguém é normal, resolvi entrar na dança e conversar com o maluco pipoqueiro.


- Olha, eu acho que ele fez o mundo em apenas 1 dia. Mas como ele é muito modesto nunca afirmou isso para que os outros não pensassem que ele estava mentindo ou que o achasse prepotente – essas coisas...!


Então dei uma gargalhada achando meu comentário bastante espirituoso, mas o pipoqueiro estava sério e continuava mexendo a pipoca. Os segundos que seguiram foram de total silêncio da minha parte e da dele. Só depois de uns 15 segundos bem constrangedores o homem sorriu e percebi não haver nenhum dente em sua boca. O pipoqueiro era desdentado. E, depois de sorrir, falou que eu deveria estar com a razão – embora ele nunca tivesse parado para pensar com calma no assunto criação do mundo.


- Faz tanto tempo, né?


Foi aí que eu rompi meu silêncio.


- O senhor pode colocar a pipoca logo no saquinho? Estou com muita fome.


- Claro! Por que não disse logo?!


Foi aí que ele me deu um saco de pipoca do grande e de forma muita simpática me deu direito a uma promoção.


- Eu vou te dar uma pipoca grande pelo mesmo preço da média. Já estou indo embora e essa é minha última venda de hoje.


Eu paguei a pipoca e agradeci ao pipoqueiro. Depois caminhei em direção a uma pracinha que havia ali do lado. Sentei no banco da praça e achei aquela pipoca, salgadinha e com manteiga derretida, uma delícia. Eu diria até que foi a melhor pipoca que eu já comi em minha vida. E sentado ali, sozinho, me alimentando, longe de casa e longe de amigos e conhecidos, olhei em direção ao pipoqueiro, mas, estranhamente, não havia mais ninguém ali. Olhei para os lados. Observei todas as ruas e calçadas próximas. Mas nada. Nenhum sinal do homem. Olhei para a fachada da loja e o letreiro estava lá, do mesmo jeito, Além Da vida. Então, acabei de comer minha pipoca e fui embora. Naquela noite pensei muito sobre Deus e o pipoqueiro. Mundo estranho o nosso. Vida estranha a nossa.

Eu



Quando desembarquei em Madri, a primeira coisa que fiz, ao sair do avião, foi olhar para o céu. Estava frio na capital espanhola. Garoava. Se eu pudesse voltar no tempo, ter uns seis ou sete anos, escutaria minha mãe falar que São Pedro estava lavando o chão do céu. Mas era impossível eu voltar no tempo. Já tinha vinte e cinco anos e minha mãe já havia morrido fazia três anos. Eu não tinha irmãos e meu pai nem cheguei a conhecer. O meu tempo era o agora, mesmo que isso não me fosse bom.


Enquanto o táxi rodava pelas ruas de Madri, imaginei ter tomado a decisão certa ao colocar uma calça jeans e tênis naquela sexta-feira. Havia poças de água por todos os lados. Como diria também minha mãe, a cidade estava melada. Mas confesso que usar, junto com o jeans, apenas uma blusinha e um blazer não fora a decisão mais acertada. Eu não levava bagagem comigo e teria que enfrentar, além dos meus velhos problemas, também o frio daquela noite. Não via motivos para parar numa loja e comprar um casaco naquele momento. Já era tarde para isso. Estava atrasada. O relógio de uma igreja, que estava triste, no meu caminho, me mostrava serem quase oito horas.


Abracei a pequena bolsa de mão que carregava comigo e esperei que ela me esquentasse. O taxista havia dito que a rua Miguel de Cervantes ficava perto do aeroporto – que não demoraríamos mais que vinte minutos para chegar e eu achava já ter passado uns quarenta minutos, pelo menos. Apesar da minha pressa, a gente não chegava. O trânsito estava horrível e me lembrava São Paulo. Eu não queria lembrar daquela cidade, eu não queria lembrar de nada, eu só queria paz para mim mesma.


Olhando meu reflexo pela janela do carro, percebi o quanto estava cansada. Não dormia bem fazia cinco meses, sete dias e nove horas. Não dormia nada fazia três dias e sete horas. Mas eu sabia que depois de resolver meu problema dormiria bem. Afinal, ninguém consegue dormir com um problema lhe atormentando a noite toda. O travesseiro fica desconfortável. O estômago fica nervoso. A cabeça parece que vai explodir. E o que se sente na garganta e no coração é um aperto imenso. Mas eu sabia que agora tudo ia mudar.


Quando eu era menina, achava que a vida seria mais fácil. Pensei que iria estudar, me formar e ser uma profissional de sucesso. Então, antes dos trinta anos eu casaria e teria um casal de filhos. Meu marido seria sempre um amor comigo. E eu, também, me desmancharia de amor por ele e por meus filhos. Mas tudo não passou de sonhos. Nem as duas faculdades que comecei, consegui terminar. Não casei e nem tive filhos. Sempre fui usada pelos homens e por todas as pessoas que atravessaram minha vida.


Eu sou do signo de escorpião. Há quem diga que pessoas desse signo sejam vingativas. Eu nunca fui. Acho que sempre fui uma exceção à regra. Nunca fiz mal para alguém. E nem por isso acho que Deus me recompensou. Não que eu fizesse o bem em busca de recompensas – mas se nunca fiz o mal por que Deus me abandonou? Não sei. Nunca entendi a felicidade, a tristeza e nem a lógica de Deus.


Percebi que enquanto minhas lágrimas desciam pelo rosto o taxista olhava pelo retrovisor com o rabo do olho. Rabo do olho também era uma expressão que minha mãe dizia muito. Tenho tanta saudade dela. Sempre cuidou tão bem de mim. Foi sempre a minha mãe quem fez o papel de mãe, pai e irmãos na minha vida. Depois de perdê-la nunca mais fui a mesma. Se minha mãe ainda estivesse viva não teria deixado eu vir para Madri. Se ainda estivesse ao meu lado talvez tudo tivesse sido diferente.


Quando o taxista disse termos chegado à rua Miguel de Cervantes número 666, eu enxuguei as lágrimas e desci do carro segurando com força minha bolsa e todas as emoções guardadas dentro de mim. Respirei fundo e toquei a campainha – ficando parada de frente a porta, como uma estátua de gelo. A porta se abriu e vi Santa parada diante de mim com um sorriso nos olhos e uma doçura nos lábios. De dentro de minha bolsa arranquei uma arma junto com um pedido invisível de desculpas e dei um tiro no rosto de Santa. Entrei na casa depressa e encontrei “Ele” sentado à mesa jantando com seu casal de filhos. Antes que os olhares assustados das crianças me demovessem da decisão, dei um tiro no rosto de cada uma. E ao olhar para “Ele” e vê-lo com os olhos esbugalhados, gritando Inês, Inês, Inês... Inês, você ficou louca?! Naquele mesmo instante eu lhe dei um tiro no peito – no exato lugar onde deveria haver um coração e nunca houve. Depois apontei a arma para minha cabeça e decidi que nunca mais pensaria no amor. Eu... nunca mais.

Amor em silêncio



- Você só tem 19 anos.
- Isso agora é problema?!
- Não, não estou dizendo isso.
- Está dizendo o que, então?!
- Só penso que você pode namorar alguém da sua idade. Agora nossos 13 anos de diferença são perfeitamente contornáveis, mas, em nossa velhice, serei 13 anos mais velho que você, e isso será uma grande diferença.
- Você está querendo terminar nosso namoro e não está com coragem de dizer?! É isso?! Fala, Flávio!
- Não, não estou querendo terminar. Não é isso.
- É isso sim! Seja homem para assumir!
- Não, você está imaginando coisas.
- Não, não estou! Você que está fazendo rodeios para dizer algo que está claro! Você cansou da menininha, né?! Eu sabia que você uma hora ia cansar! Você sempre falou que beleza física para você não era o mais importante. O fato de eu ser jovem, bonita, te atraiu, mas agora só isso não basta, não é?!
- Érika, a gente viveu um relacionamento lindo. Ficamos juntos por três anos, mas agora a gente anda brigando por tudo. Não faz sentido isso, entenda!
- Eu sabia! Eu era mais nova e ainda boba! Então, você me usou e agora se cansou de mim! Me falaram que isso ia acontecer! Me falaram tantas vezes! Meu Deus, como fui idiota!
- Idiota você está sendo agora, Érika! A gente tem brigado tanto que eu já não tenho certeza se nos amamos. Como é possível amar e brigar tanto assim?!
- Eu te amo, Flávio! Eu te amo muito!
- Será?! Ou será que você acha que ama?! Você nunca conheceu um outro homem! Nesse momento eu sou tudo que você conhece e por isso sou o melhor, o mais encantador, o mais bonito...! Na sua cabeça eu sou o homem ideal! Mas, daqui algum tempo você pode nem lembrar que eu existo!
- Não, eu sempre vou te amar!
- Você não sabe!
- Sei sim! Tenho certeza!
- Você não tem certeza de nada, Érika!
- Tenho certeza, sim! Tenho certeza sim, Flávio! Eu não sou uma menininha idiota! Você quer me abandonar! Você deve já ter outra, não é mesmo?!
- Não dá para conversar com você, Érika! Chega! Estou saindo!

Flávio pegou o celular sobre a mesa, as chaves, a carteira, e saiu batendo a porta. Érika chorava compulsivamente caída ao sofá da sala – enquanto a TV alta servia desde o começo da briga para encobrir os sons da desesperança. Todos os familiares de Érika foram contra o inicio daquele relacionamento. Como podia uma garota de 16 anos namorar um homem de 29? Todos da família de Flávio também foram contra. Como podia um homem de 29 anos namorar uma garota de 16?
Flávio sempre teve certeza do amor por Érika e nunca deu ouvidos para os comentários alheios.


Érika também amava Flávio e, mesmo sendo muito jovem, tinha certeza que ele era o homem de sua vida – o futuro pai de seus filhos. O casal viveu muito bem nos dois primeiros anos juntos. Aliás, deixaram de ser namorados para ser casados – dividirem o mesmo lar e dividirem, também, todos os planos de futuro. Mas os últimos meses não foram como os dois esperavam e as brigas se tornaram uma constante na vida do casal.


Então, depois de tudo, Érika, abandonada naquele apartamento, soluçava de tanto chorar e se sentia triste, magoada e usada. Flávio, perdido em seus pensamentos, caminhava em direção a casa de seus pais, sete quarteirões ao sul. Érika parecia desesperada. Flávio parecia muito triste.


O céu ficava escuro naquela tarde de verão e a chuva se aproximava rápido. Érika caminhou até a sacada do apartamento e olhou o céu. Flávio atravessou a rua correndo e olhou o céu. Gritos desesperados ecoaram no prédio. Gritos desesperados ecoaram na rua. Érika e Flávio se encontraram no silêncio. E no silêncio eles sempre se amaram.

O negociador



- Volta pra cama, Rafael.
- Me deixa em paz, Renata!
- Você não teve culpa do que aconteceu.
- Três garotas morreram e você diz que eu não tive culpa?!
- Não foi você quem as matou.
- Claro que não! Eu era o cara que deveria tê-las salvado e não consegui.
- Rafael, assim como você, havia mais setenta policiais na frente daquele banco. Os seqüestradores mataram as reféns por crueldade. Você e nem ninguém poderia ter feito nada. Coloca isso na sua cabeça.

Já fazia quase três meses que o Banco Bassi, na esquina da rua Borges de Lagoa com a avenida Domingos de Morais, na Zona Sul de São Paulo, havia sido assaltado numa quinta-feira fria de inverno. Eram pouco mais de 10h00 quando sete homens entraram na agência carregando fuzis AK-47 e mandaram todos deitarem no chão e anunciaram um assalto.
Rafael estava de folga naquele dia e, desde às 10h30, caminhava pelo Parque do Carmo, na Zona Leste da cidade, ouvindo Belchior no seu MP3 e cantarolando músicas antigas como Apenas Um Rapaz Latino-Americano. À tarde ele queria ir ao cinema assistir ao novo filme do Beto Brant. À noite iria pegar a Renata na faculdade e iriam na casa de um casal de amigos que acabara de ganhar o primeiro filho e faria uma pequena recepção para apresentar o mais novo integrante da família Sakamoto.

- Porra, nem na folga esse celular pára de tocar! Alô!
- Rafael, é o Moura.
- Estou de folga, Moura. Não está sabendo?
- Estou, mas você já viu o que está acontecendo?
- Acontecendo o quê, Moura? Não estou sabendo.
- Liga a TV, cara. Tem um puta assalto a banco aqui na Vila Mariana. Tem reféns, cara! A situação está foda! Acho que o Capitão vai te chamar a qualquer momento.
- Puta, que merda!

Rafael saiu do Parque e foi caminhando para casa, há uma quadra dali, tomar um banho. Assim que chegou, ligou a TV para ver se algum canal dava a notícia. Se assustou ao constatar que dos sete canais abertos, cinco estavam ao vivo mostrando tudo. Ele tirou a roupa e entrou no banheiro, mas o celular tocou na sala e ele voltou pelado para atender.

- Tenente Ribeiro?
Era o Capitão Silveira, com toda a certeza.

- Sou eu, Capitão.
- Está acompanhando o assalto?
- Sim capitão.
- Então, por que cargas d’água você não chegou aqui ainda?!
- Já vou capitão. Daqui meia hora estou ai.
Rafael desligou o telefone e praguejou contra a sorte.

- Miserável de vida. Nem na minha folga tenho sossego. Ainda falei que chego em meia hora. Nem se eu tivesse um motor na bunda.
Rafael tomou um banho rápido. Se trocou mais rápido ainda. E foi de moto para não atrasar muito.

- Você está atrasado vinte minutos, Tenente Ribeiro.
- Foi o trânsito, Capitão.
- Não quero saber de desculpas. Vá falar com esses bandidos e diga para eles se entregarem agora.
- Sim, Capitão.

Rafael achava o Capitão Silveira um sujeito insuportável. Nada para ele estava bom. E em toda negociação ele orientava do mesmo jeito. Falava para Rafael dizer para os bandidos se entregarem. Mas, se os bandidos quisessem se entregar eles já o teriam feito. Não precisava de um negociador para isso. Não precisava do Rafael. Então, ele reclamava que o Capitão Silveira achava tudo fácil, mas nunca colocava o traseiro dele na reta, só o dos outros policiais, só o do próprio Rafael, principalmente. Tudo era Rafael resolva isso, Rafael resolva aquilo e ele reclamava já estar de saco cheio.

- Ei, meu nome é Rafael, sou um negociador da Policia Militar. Vejam, estou desarmado. Minha função aqui é saber de vocês o que está acontecendo. O que vocês querem para soltar os reféns e sair todo mundo ileso dessa situação toda.
- Nós não queremos machucar ninguém, policial, mas vocês estão querendo invadir e, se invadirem, muita gente vai morrer.

Depois de alguns minutos de conversa, a análise da situação estava feita. Rafael acreditava que eram bandidos com alguma experiência, mas delinqüentes comuns. O problema maior é que os assaltantes estavam muito bem armados. Eram sete, segundo informações de pessoas que viram o assalto começar.

- Capitão, os caras não estão muito afim de negociar. Eles querem fugir. Estão fazendo ameaças de matarem os reféns. Penso que se eles acharem que vamos invadir o banco, matarão mesmo.
- Mas quem eles pensam que são?! Aqui nós damos as ordens e eles obedecem. Se esses idiotas não saírem logo desse banco, nós vamos entrar e matar os sete.

Rafael nunca entendeu como o Silveira se tornou Capitão. Ele era burro e truculento. Ser negociador sob suas ordens era sempre uma árdua tarefa.

- Já são quase 5 horas, Rafael, e esses bostas não se entregam. Acho que isso não vai terminar bem.
- Vira essa boca pra lá, Moura!
- Daqui a pouco vai anoitecer e aí que as coisas vão ficar mais tensas por aqui. Ainda bem que já estou indo embora.
- Você indo embora, porra?! A merda está fedendo aqui e você pensando em ir embora?! Está louco?!
- Eu comecei hoje às 6h00, Rafael! Estou por quase 12 horas trabalhando, cara! Eu não fui passear no parque não, bonitão! Vá se foder!
- Ih caramba, lembrei que preciso telefonar pra Renata. Íamos sair hoje à noite. Fodeu tudo.

O relógio correu rápido e quase meia-noite Rafael ainda tentava uma rendição dos bandidos. Falava com o líder do grupo quando escutou um disparo, uma gritaria, e de dentro do banco escutou o zumbido de uma bala que voava rápida em direção ao seu peito. Sentiu um impacto forte no colete a prova de balas. Por sorte não veio de nenhum fuzil, mas de uma arma comum.

- Porra! Quer merda! Tomei um tiro!

Tiros foram disparados por todos os lados. Quatro seqüestradores foram mortos. Três foram feridos. Três reféns, mulheres, funcionárias do próprio banco, foram mortas. Outras oito pessoas, entre funcionários e clientes, saíram feridas. Investigações mostraram que tudo começou depois de dois tiros dados por atiradores de elite, que eliminaram, assim, dois bandidos. Outros cinco reagiram à invasão da polícia ao banco. De lá para cá, Rafael nunca mais dormiu tranqüilo.

- Foi tudo culpa do Capitão, né Rê? Eu sei que foi. Mas, sei lá, eu me sinto culpado por não ter conseguido fazer aqueles caras se entregarem e ter salvado as garotas.
- Volta pra cama, amor. Isso já passou. Você não tem que pensar nas vidas perdidas e sim nas vidas que você ainda vai ajudar a salvar.
- Você é linda, Renata. Me ajuda tanto. Tem tanta paciência comigo. Sei que não estou uma boa companhia ultimamente.
- Eu te amo, bobinho. Me abraça, vai.

Rafael se matou com um tiro na boca, dois dias depois, trancado no próprio banheiro de casa. No mesmo dia do suicídio, Capitão Silveira recebia uma homenagem, da Assembléia Legislativa de São Paulo, por serviços prestados à população paulista, como policial. Até uma medalha por agilidade e bravura ele agora carrega no peito. Moura virou o novo negociador da equipe do Capitão Silveira e tem andado mal-humorado por ter que, algumas vezes, atravessar noites negociando com bandidos. Ele reclama que já está de saco cheio.



O trato e a reza



Pedro Paulo chegou com passos curtos na indecisão de quem acredita, mas desconfia. Suas mãos nos bolsos da calça serviam para conter o frio e também a timidez. A garoa molhava devagar as paredes da Igreja Nossa Senhora dos Pecadores. Pedro Paulo entrou com o silêncio. Disputou lugar, também, com o barulho de seu sapato pisando o chão lustroso da igreja. O homem olhou as pinturas religiosas seguindo seus movimentos com olhar de desaprovação.


O banco da igreja estava gelado quando Pedro Paulo sentou. Não havia ninguém lá às 8h35 daquela quinta-feira de inverno em Maranguape, interior do Ceará. Pedro Paulo pensou que Madalena havia pedido para ele passar no supermercado antes de voltar para casa e comprar atum para ela fazer uma torta. Pedro Paulo pensou também que já devia fazer 15 anos que ele não entrava numa igreja.


Lá fora estava frio enquanto dentro da igreja estava quente demais para Pedro Paulo continuar de blusa. Ele tirou a blusa e a deixou dobrada ao seu lado. Também tirou os óculos, mas depois os colocou de novo. O relógio apertava demais o pulso. Os sapatos apertavam demais os pés. O cinto apertava demais a barriga. Pedro Paulo estava incomodado de estar ali. Mas sabia que a igreja serviria para colocar suas ideias em ordem na cabeça. Só havia um problema: desaprendera a rezar.


Como podia esquecer o Pai Nosso, pensava consigo mesmo. E também já não se lembrava da Ave Maria. Pedro Paulo não se lembrava de nada e ali na igreja começava a entender que sua vida estava errada demais para consertar tudo com uma simples reza. Lembrou da infância perambulando pelas ruas. Lembrou da adolescência se prostituindo em troca de comida. Lembrou da juventude roubando carros e matando gente se fosse preciso. Lembrou só das coisas que gostaria de esquecer.


Madalena havia pedido atum e cebola ou só atum? Seus trocados no banco seriam suficientes para pagar a conta do mercado e da farmácia no final do mês? Pedro Paulo coçou a cabeça enquanto olhou nos olhos de Santo Agostinho. Era filosofia demais a dor que o assolava. Então, Pedro Paulo ajoelhou-se e resolveu falar com Deus. Falaria do seu jeito, mas falaria tudo. Não deixaria para depois uma só palavra.


O relógio da igreja contou mil trezentas e trinta e sete batidas. Pedro Paulo se levantou. Seus joelhos já estavam dormentes. Foi para o corredor e fez o sinal da cruz. Saiu andando direto para casa e nem passou no supermercado. Entrou pela porta da cozinha porque a porta da sala estava fechada por dentro com um trinco. Entrou sem fazer barulho. Entrou e sentou no sofá. Ali ficou por quase uma hora.


Assim como na igreja, a casa de Pedro Paulo era um silêncio só. Na igreja ainda se escutava o zoado longe de umas crianças brincando na praça central. Em casa não havia zoado nenhum. Na igreja os santos falavam com os olhos. Em casa não havia ninguém para falar nada. Pedro Paulo olhou para o retrato de Madalena sobre a estante da sala. Pedro Paulo teria trazido o atum e a cebola se a mulher tivesse pedido a ele. Mas, por essas coisas do destino e da morte, fazia 15 anos que Pedro Paulo não ouvia a voz de Madalena.


O homem se levantou do sofá e foi à estante. Segurou com as duas mãos o retrato de Madalena. Olhou fixamente no rosto imóvel. Depois abriu a gaveta e lá colocou o retrato. No fundo da gaveta havia um livro preto e empoeirado pouco maior que uma mão. Era hora de cumprir o trato que fizera com Deus. Leria a Bíblia até aprender toda a história, incluindo as rezas. Em troca, Deus o faria esquecer Madalena que teimava em não morrer, mesmo 15 anos depois de morta. E a leitura, em voz alta, rompeu o silêncio daquela casa.

domingo, 19 de abril de 2009

Ranufo, o bobo!


Ranufo sabia que havia errado. Ele não queria ter traído Joana, mas agora a bobagem estava feita. Milena já estava grávida de três meses. O noivado com Joana na iminência do fim. Era só uma questão de tempo. Milena, muito escandalosa, já havia contado para todo o bairro e para os bairros vizinhos que estava grávida e que Ranufo era o pai do bebê.


Se arrependimento matasse, Ranufo já estaria morto. Ele não se conformava de não ter usado preservativo. Ele não entendia por que havia ido para a cama com uma garota que não era sua noiva e nem por que, na burrice de ter ido, não havia se prevenido para que uma gravidez indesejada não aparecesse.


Joana iria saber e choraria compulsivamente. Ela que sempre foi uma mulher incrível para Ranufo. Ouviu cantadas de todos os homens do bairro, de todos os colegas da faculdade e do trabalho, durante todos os cinco anos que namoravam, mas nunca, em hipótese alguma, pensou em traí-lo. Joana amava Ranufo e sempre acreditou em seu amor também.


Milena sempre foi da pá virada mesmo. Ela já havia tentado ficar grávida de uns quatro ou cinco caras do bairro, mas todos sabiam de sua fama de biscate e ninguém seria bobo de cair nas armadilhas daquela moça. Ninguém não. Havia o bobo do Ranufo, pensava ele próprio tentando entender aquela situação – aquele pesadelo em sua vida.


Mas nem tudo estava perdido. Para tudo se dava um jeito, menos para a morte, pensava Ranufo. Ele amava Joana e não iria perdê-la de maneira alguma. E quem poderia garantir que o filho na barriga de Milena era realmente dele? Afinal, a menina dormia com todo os homens do bairro. Ranufo já sabia o que precisava fazer. Ele iria pedir um exame de DNA. Estava aí a solução. Ele seria inocentado e casaria com Joana.


Mas Joana já sabia de tudo e estava furiosa. Uma vizinha veio contar para Ranufo que sua noiva já era sua ex-noiva. Agora a casa havia caído de vez sobre a cabeça de Ranufo. Joana, além de furiosa, estava inconsolável. Milena gargalhava debochadamente da cara de Ranufo. A vizinha também. O bairro todo. Até o cãozinho de estimação de Ranufo. Peraí, pensou Ranufo, cachorro não sabe dar risada. Tinha algo errado naquela história toda.


Então, Ranufo acordou assustado com um barulho de despertador. Está todo suado. Ele estava sonhando. Era um pesadelo. Que coisa horrível, pensou Ranufo. Agradeceu a Deus por tudo não ser verdade e, ao mesmo tempo, estranhou o teto daquela casa, a mobília, o cheiro de perfume barato – algo ainda estava errado naquela história. Totalmente pelado sobre a cama, Ranufo olhou para o seu lado esquerdo e viu Milena, totalmente pelada, dormindo ao seu lado. O pesadelo iria começar de novo, mas agora ele era real. Que lhe mandou ser tão bobo, Ranufo?!

Defunto saltitante




- Agora danou-se!
- Pára com isso, João! Deixe de bobagem, homem!
- Bobagem porque não é com você. Ele falou para a Gislaine que se pegasse outro homem com ela, morria ela e o amante.
- Isso que dá ficar saindo com mulher casada. Eu te avisei, homem, mas você não toma jeito.
- Eu só queria me divertir um pouco, Josefa. Você nunca vai entender isso.
- Então tomasse mais cuidado! Agora que o corno já sabe você vai se divertir no inferno, seu filho de rapariga!
- Rapariga não! Que minha mãe é sua mãe também. Tome cuidado com as palavras, Josefa!
- Às vezes fico pensando que você deve ser bastardo. Se fosse meu irmão de verdade teria algum juízo nessa cabeça.
- Me ajude, me ajude, me ajude, Josefa!

João estava encrencado mesmo. Severino havia deixado muito claro para Gislaine que, se ela o traísse, fizesse bem feito e não deixasse pistas. Pois, se ele soubesse de traição, a faca ia ficar vermelha. Então quando Gislaine e João saíram daquele motel, de beira de estrada, no opala amarelo, e viram Severino montado na bicicleta, olhando feroz para dentro do carro, João acelerou o possante como se guiasse um Fórmula 1.
O cabra marcado para morrer deixou Gislaine chorando na porta da casa da mãe dela. Depois saiu rasgando aquela rua de terra em direção à casa de sua irmã. Chegando lá, contou a história e pediu ajuda – como se Josefa pudesse fazer alguma coisa diante de tal problema. João estava de cabelo em pé, porque sempre fora frouxo – daqueles homens que têm medo de barata e não tomam banho de água fria, em hipótese alguma. Só de pensar numa faca entalada na sua barriga, já se sentia um morto.

- A saída é fugir, João.
- Fugir para onde, mulher de Deus?!
- Fugir para onde você não morra, sua besta!
- E se ele me achar?
- Foi por que você não fugiu direito, seu filho de uma égua!
- E dinheiro?
- Não olha para mim. Porque você não vende seu opalão?
- Isso não! Prefiro morrer!
- Então morra! Mas saia da minha casa primeiro que limpei o chão faz 15 minutos e não quero mancha de sangue aqui não!
- Não brinque com uma coisa dessas, Josefa!
- E quem é que está brincando aqui?

João pegou o opala e foi no posto de gasolina.

- Juraci, me ajuda?
- O que foi, João?
- Preciso que você encha o tanque do opalão, fiado.
- Sem problema, João. Depois você me paga, oxente.
- Mas tem mais.
- Mais o quê?
- Preciso que você me empreste um dinheiro.
- Danou-se! O banco é no outro lado da rua, João.
- É urgente, Juraci. Caso de vida ou morte.
- Quem está doente, João?
- Ninguém, mas se você não me emprestar o dinheiro – vai ficar e vai morrer logo, não vai durar nada não.
- Você está bêbado essa hora do dia, João?
- Juraci, estou falando sério. Enche o tanque do opalão e me empresta algum dinheiro. Juro para você que na próxima semana eu pago.
- Então, está bem. Mas é bom pagar mesmo, João. Porque nós somos amigos, desde criança, mas, se você não pagar o dinheiro, eu te mato.
- Então, entre na fila que a concorrência está grande.
- O que foi, homem?
- Nada não. Me dê esse dinheiro logo e encha o tanque aí que preciso pegar a estrada, Juraci.

João foi embora. Não deu tempo nem pegar bagagem. Foi para destino não sabido, nem por ele próprio. João queria viver e sabia que se ficasse mais alguns minutos naquela cidade viraria um homem morto. Na estrada, João se arrependeu, desde o dia que nasceu, por ter saído com Gislaine. Tanta mulher no mundo e foi comer logo mulher casada, pensava. Era uma besta mesmo, como a irmã falava.
Na cidade, Gislaine tentava explicar o inexplicável para Severino. A gritaria parava a cidade. E para segurar Severino foram preciso cinco homens, fortes e valentes. Severino gritava que a faca estava afiada e que aquela rapariga ia saber com quem casou era naquele momento. Severino queria vingança. Severino queria sangue. Severino estava doido.
João, na estrada, sentia fome e, agora mais calmo, achava que já era hora de parar para comer alguma coisa. Parou o opala amarelo numa lanchonete na beira da estrada e entrou olhando a vitrine e procurando o que comer. Uma atendente lhe abriu um sorriso e lhe perguntou o que queria. João arregalou os olhos, sentiu a boca salivando, e viu que a fome era muito maior do que ele imaginava.

- Esse lanche de queijo está fresco?
- Sim, está. Mas se o senhor quiser posso pedir para o meu marido fazer um outro agora mesmo.

João olhou para o marido da moça trabalhando na chapa, no fundo da lanchonete, e olhou para a boca, os olhos e, depois, o decote da atendente. Por fim, sorriu.

- Peça para seu marido fazer um lanche novinho para mim. E depois venha cá, na mesa, que quero lhe pedir umas outras coisas, fazendo o favor.
- Claro. O senhor fica à vontade que eu já volto.

João havia gostado daquela cidade. João achava que ia se estabelecer ali mesmo. No rádio da lanchonete escutou um samba “...deixa a vida me levar, vida leva eu..., deixa a vida me levar, vida leva eu..., sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu...”. Ainda deu uma sambadinha antes de sentar à mesa e agradecer a Deus por ser homem e, depois disso, por estar vivo também. Mas ter nascido homem era mesmo a melhor parte, pensava.



Pétalas



Sensibilidade
Isadora escrevia poesias. Com nove anos já brincava com as palavras e fazia rimas de sons e pensamentos. Quando cresceu, não poderia ser outra coisa senão uma escritora e poetisa. Escreveu muitos livros. Foi traduzida em diversos idiomas. Ficou famosa e teve muitos de seus textos adaptados para o teatro e para o cinema.
O tempo passou e tudo saiu, exatamente, como os planos de Isadora. Além de escritora famosa, formou uma família muito bonita, toda ela, com os mesmos valores e princípios que a mulher e escritora sempre defendeu. Resolveu, por conta própria, aposentar-se como escritora ao completar setenta anos de idade. Publicou seu último romance com o nome Páginas Felizes, e nele contou a história de sua vida.

Reviravolta
Rita de Cássia adorava o mar. Com onze anos já falava que achava o mar a coisa mais bonita que Deus inventou. Quando cresceu, virou bióloga marinha e tinha em sua profissão uma diversão pura. Nunca achou que aquilo fosse trabalho, mas, se havia quem lhe pagasse dinheiro para estar no mar em contato direto com as mais encantadoras espécies marinhas, que assim o fosse.
O tempo passou e quase tudo saiu como os planos de Rita de Cássia. Até que um dia, mergulhando no litoral mexicano, algo saiu errado. Faltou oxigênio no botijão de ar que carregava às costas ou, por algum motivo, esse oxigênio não chegou aos pulmões da bióloga. Ela tentou usar de toda sua experiência para conseguir subir com segurança até a superfície, mas, quando conseguiu, seu cérebro havia sofrido problemas irreparáveis. Atualmente a bióloga marinha vive 24 horas, sobre uma cama, em total estado vegetativo.

Destino
Mariana vivia na roça. Com treze anos já sonhava em ser médica, embora a vida simples que levava ao lado de seus pais e nove irmãos não contribuísse para sonhos muito bonitos. Diante das dificuldades e caminhando por mais de uma hora, todos os dias, até chegar à escola, pensava no dia que se formaria em medicina e, também, em qual seria a merenda escolar, já que essa seria sua principal refeição do dia.
O tempo passou e quase tudo saiu como os planos de Mariana. Ela cresceu e foi estudar na cidade. Conseguiu terminar os estudos básicos e chorou de alegria quando, mais tarde, conseguiu uma bolsa de estudos de uma ONG alemã para fazer medicina aqui mesmo no Brasil. Formou-se aos vinte e cinco anos, mas, num acidente de carro, faleceu três meses depois de formada – deixando seus pais e irmãos sofrendo na roça.

Mudanças
Alice estava grávida. Com quinze anos seu corpo já era de mulher, mesmo todo o restante ainda sendo de menina. Abortar não estava em questão. A idéia de casar também não passava por sua cabeça. Certamente seus pais a ajudariam com o filho. No começo haveria brigas, constrangimentos, tristezas – mas com o tempo as coisas se ajeitariam. Para tudo havia um jeito, menos para a morte, pensava.
O tempo passou e tudo saiu, exatamente, como os planos de Alice. Sua filha se chamou Ana Paula. Uma menina linda com cabelos pretos iguais aos da mãe e com olhos castanhos escuros que, infelizmente, não ajudaram Alice saber, com exatidão, quem era o pai. Alice viveu intensamente seus primeiros quinze anos de vida e, mesmo que não se arrependesse de tudo que fez, sabia que sua vida havia mudado.

Felicidade
Emanuela iria casar. Com dezessete anos ainda era jovem para um casamento, mas sua decisão estava tomada. Casaria e seria muito feliz, porque amava seu namorado e ele também a amava. O casamento foi marcado para o mês de agosto e tudo ocorreu como era desejado. Teve orgulho de si mesma ao entrar na igreja. Nos olhos dos pais, parentes e amigos viu refletida a sua felicidade em momento tão lindo.
O tempo passou e tudo saiu, exatamente, como os planos de Emanuela. Foi muito feliz no casamento. Seu marido foi o melhor marido do mundo e ela também lhe retribuiu os sentimentos durante toda a vida. Teve um casal de filhos, cinco netos e nove bisnetos. Viveu na cidade grande até os cinqüenta e três anos e depois disso curtiu sua velhice ao lado do marido em uma cidade nordestina, falecendo somente quando já se aproximava dos cem anos.

O milagre




Veja bem, Maria. Aqui na rua de trás da minha rua mora uma benzedeira. Você até sabe, mas é preciso saber mais. Ela é cega de um olho e enxerga mal com o outro. O nome dela é Dona Rosa. Ela é surda de um ouvido e não escuta bem com o outro. A pele dela é negra. O cabelo é cinza. Dona Rosa deve ter uns 90 anos, mas ninguém sabe a idade dela não.

Veja bem, Maria. Todos os dias na casa de Dona Rosa algumas pessoas entram e algumas pessoas saem. Uns vão até lá andando e outros param seus carros de luxo em sua porta. Ela trata qualquer um do mesmo jeito. A perna esquerda não tem lá muita força. A direita também não é lá muito firme. Mas com uma bengala, de cabo de vassoura, Dona Rosa anda com seus passos curtos por aí.

Veja bem, Maria. A vida de Dona Rosa é ajudar os outros. E isso ela faz quando o sol esquenta. E isso ela faz quando a chuva esfria. E isso Dona Rosa faz desde criança. Dizem os mais velhos que ela benze as pessoas desde que tinha 11 anos de idade. Eu não duvido. Eu mesmo quando tinha uns 7 ou 8 anos fui benzido por Dona Rosa pela primeira vez. E agora já estou com 53 anos, o que dá credito para o que o povo diz.

Veja bem, Maria. Nesse bairro onde vivo não tem uma alma viva ou morta que não conheça Dona Rosa. Ela nunca quis casar. Falam que ela nunca nem namorou. Alguns dizem que ela é santa. Há também quem diga que ela é o próprio capeta. Dona Rosa conversa sozinha, diz que vê pessoas mortas do mesmo jeito que vê as vivas. Ela tem poucos dentes na boca. Ela tem umas unhas grandes. Ela cheira a perfume de rosas qualquer hora do dia.

Veja bem, Maria. Você bem sabe que sou muito observador. Não é por acaso que desde muito novo virei escritor. E sabe também que eu não sou de acreditar no que os outros falam. Sendo assim, mesmo vivendo perto de Dona Rosa eu nunca escrevi sobre ela, porque não tinha certeza se devia falar bem ou mal da velha. Eu não sabia e ainda não sei. Hoje abro uma exceção, mas já vou, em breve, lhe dizer o motivo.

Veja bem, Maria. Ontem à noite eu estava aqui em cima dessa cama e não sei precisar o horário. Talvez meia-noite. Talvez uma da manhã. Talvez duas da manhã. Não sei. Mas, de repente, uma pessoa entrou pela porta de meu quarto sem bater, sem fazer barulho e, digo pra você, sem nem abrir a porta. Eu, medroso que sempre fui, fiquei todo arrepiado, mais que assustado e, com o perdão da palavra: caguei, me caguei todo.

Veja bem, Maria. Eu fechei os olhos para me esconder do medo. Depois abri eles para limpar meu medo. Então, fechei eles de novo e gritei por Deus. Quando abri de novo os olhos a pessoa ainda estava ali. Só aí que reconheci aquele rosto sofrido e aquele corpo franzino. A pessoa era Dona Rosa que segurava uns pedaços de plantas nas mãos e falava, baixinho, palavras que eu não entendia.

Veja bem, Maria. Eu controlando meu medo perguntei o que Dona Rosa fazia ali. Mas a velha não me respondeu. Ela sorriu seu sorriso desdentado e continuou seu ritual. Depois de uns três minutos que eu, entre lágrimas e perguntas sem respostas, fiquei imóvel, pra variar, nessa mesma cama, Dona Rosa firmou-se em sua bengala e foi embora, a passos curtos, do mesmo modo que chegou.

Veja bem, Maria. Mais que nenhuma outra pessoa você sabe minha peleja com a vida. Eu que sempre fui um homem comum até meus 23 anos. Eu que procurei entender e aceitar tanta coisa, embora meu sofrimento nunca me deixou certezas. Dona Rosa partiu e eu, cheirando à merda, precisava de alguma forma me limpar. Eu que tantas vezes precisei de ajuda, fosse no clarão do dia ou fosse na escuridão da noite.

Veja bem, Maria. Dona Rosa em meu quarto caminhando no escuro, passando através da porta, era o impossível. Então, diante da certeza de aquilo não ser um sonho, eu pensei que o impossível estava no meu quarto àquela noite. Fiz força, fiz muita força e fiz mais força ainda. Meu corpo se moveu lentamente e os movimentos dele foram de acordo com minhas vontades. Maria, Maria, Maria – bestificado fiquei quando depois de 30 anos paralisado nessa cama, eu, sozinho, me levantei.

Veja bem, Maria. Estou me levantando na sua frente agora. Veja bem, Maria. Eu estou de pé. Veja bem, Maria. Eu estou andando. Veja bem, Maria. Você se lembra quando foi a última vez que eu havia andado? Fazia tempo, né? Dê-me sua mão e vamos juntos, agora, à casa de Dona Rosa. Veja bem, Maria. Eu nunca acreditei em milagres. Nunca. Mas, de agora em diante, jamais poderei negar a mim mesmo.

Zé Com Fome e Kurosawa









Zé Com Fome e Kurosawa comeram cada um sua banana e saíram para o trabalho naquela manhã chuvosa de Sexta-Feira Santa. Precisavam muito papelão e latinhas de alumínio para conseguirem comer umas sardinhas na hora do almoço. Com a carroça vazia e o cachorro Kurosawa, Zé com fome seguiu desviando da miséria. E bota fome na barriga de Zé, porque Kurosawa abana o rabo sem saber de quê!




Zé Com Fome e Kurosawa deram sorte na primeira esquina e juntaram num poste, com cheiro de mijo, segundo o próprio Zé, caixas de papelão em abundância. De frente para o poste um prédio de vidro escrito em letreiro bonito Vatomarnoku Importação & Exportação. E Kurosawa coçou as pulgas enquanto Zé Com Fome encheu a carroça. E bota sorte na cabeça de Zé!




Zé Com Fome e Kurosawa são ateus e, embora Deus não esteja em seus planos, agradeceram assim mesmo a ELE pela chuva que caia bonita trazendo sorte aos dois guerreiros. Kurosawa mostrava os dentes como a sorrir a benção de ser cachorro no País do futuro. E Zé Com Fome também mostraria os dentes num sorriso bonito se dentes tivesse para mostrar. E bota alegria nos olhos de Zé!




Zé Com Fome e Kurosawa reviraram sacos de lixo em busca de riquezas e de algumas latinhas também. Kurosawa achou uns pasteis e umas empadinhas misturados com papel higiênico e nota fiscal. Kurosawa não sabe ler, mas Zé sabe. Então Kurosawa come os pasteis e as empadinhas enquanto Zé analisa, com olhos de contador, a nota fiscal lambuzada de catchup e merda. E bota análise nos dedos de Zé!




Zé Com Fome e Kurosawa só pararam depois de horas. E de frente ao banco olharam orgulhosos a bandeira do Brasil tremulando forte na chuva de vento. E ambos abanaram os rabos com orgulho de serem cachorros, mas não vagabundos. E a felicidade era tanta depois de uma manhã de trabalho que nem notaram as câmeras de segurança à vigiarem a alegria dos dois Dom Quixotes brasileiros em pleno campo de batalha. E bota coragem na carroça de Zé!