domingo, 26 de abril de 2009

Deus e o pipoqueiro



No último feriado, eu andava pela avenida Anhanguera, no centro da cidade de Goiânia, achando ruim o calor forte e achando ruim mais um monte de coisa. Foi quando avistei um pipoqueiro. Eu faminto e o comércio todo fechado. Eu turista e ninguém para pedir informação. Então, não teve jeito, na falta de comida de verdade, me rendi à pipoca. Não que eu seja fã dessa "iguaria", muito pelo contrário, mas fome é fome, e ponto final.


- Uma pipoca, por favor.


- A alma é visível ou invisível?


Eu pensei que o pipoqueiro não havia entendido o que eu falara. Como não custa nada repetir e, se possível, ser mais didático.


- O senhor pode me vender um pacote médio de pipoca?


- Existe vida após a morte?


Aí a situação se complicou. O pipoqueiro parecia estar vivendo num outro mundo ou estar me gozando, sei lá.


- O senhor não quer me vender a pipoca não?!


- Existe alguém mais poderoso no universo que o próprio homem?


Então, eu desisti e virei as costas para o ambulante metido a filósofo e sai andando. Mas aí o pipoqueiro gritou.


- Moço, o senhor quer com manteiga ou sem?


Eu respirei fundo. Lembrei da fome e do comércio fechado. Voltei em direção ao indivíduo com meu sorriso amarelo no rosto.


- Com manteiga, por favor. No que de pronto ele respondeu de forma bem séria.


- Saindo uma pipoca média, com manteiga, e caprichada.


Enquanto ele mexia a pipoca, antes de colocá-la num pacote, comentou estar pensando muito em Deus ultimamente. Eu lhe dei outro sorriso amarelo.


- Que bom.


O homem, no exato momento, perguntou qual era minha religião e, antes que eu tivesse tempo de resposta, voltou a falar.


- Não tem importância. Todos caminhos levam a Deus, né?


O senhor pipoqueiro, de cabelos brancos, como neve, e o rosto bastante bronzeado, mexia a pipoca para um lado e para o outro, mas nada do meu pacote ser entregue. Pensei em desistir de novo, mas, de repetente, percebi que o letreiro da loja, também fechada, atrás do pipoqueiro, marcava Além Da Vida, e com letras estilizadas – um letreiro bonito. Foi aí que relaxei e esperei o cara parar de mexer aquela pipoca e servir a minha janta. Sim, caro leitor amigo, aquela pipoca com manteiga seria minha janta de sexta-feira à noite.


- Você acha que Deus criou o mundo em 7 dias mesmo?


O cara era estranho, mas, como de perto ninguém é normal, resolvi entrar na dança e conversar com o maluco pipoqueiro.


- Olha, eu acho que ele fez o mundo em apenas 1 dia. Mas como ele é muito modesto nunca afirmou isso para que os outros não pensassem que ele estava mentindo ou que o achasse prepotente – essas coisas...!


Então dei uma gargalhada achando meu comentário bastante espirituoso, mas o pipoqueiro estava sério e continuava mexendo a pipoca. Os segundos que seguiram foram de total silêncio da minha parte e da dele. Só depois de uns 15 segundos bem constrangedores o homem sorriu e percebi não haver nenhum dente em sua boca. O pipoqueiro era desdentado. E, depois de sorrir, falou que eu deveria estar com a razão – embora ele nunca tivesse parado para pensar com calma no assunto criação do mundo.


- Faz tanto tempo, né?


Foi aí que eu rompi meu silêncio.


- O senhor pode colocar a pipoca logo no saquinho? Estou com muita fome.


- Claro! Por que não disse logo?!


Foi aí que ele me deu um saco de pipoca do grande e de forma muita simpática me deu direito a uma promoção.


- Eu vou te dar uma pipoca grande pelo mesmo preço da média. Já estou indo embora e essa é minha última venda de hoje.


Eu paguei a pipoca e agradeci ao pipoqueiro. Depois caminhei em direção a uma pracinha que havia ali do lado. Sentei no banco da praça e achei aquela pipoca, salgadinha e com manteiga derretida, uma delícia. Eu diria até que foi a melhor pipoca que eu já comi em minha vida. E sentado ali, sozinho, me alimentando, longe de casa e longe de amigos e conhecidos, olhei em direção ao pipoqueiro, mas, estranhamente, não havia mais ninguém ali. Olhei para os lados. Observei todas as ruas e calçadas próximas. Mas nada. Nenhum sinal do homem. Olhei para a fachada da loja e o letreiro estava lá, do mesmo jeito, Além Da vida. Então, acabei de comer minha pipoca e fui embora. Naquela noite pensei muito sobre Deus e o pipoqueiro. Mundo estranho o nosso. Vida estranha a nossa.

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