domingo, 31 de maio de 2009

Amor de domingo (I)



Fui caminhar no parque. Fazia frio naquela manhã de domingo, em São Paulo. Um termômetro de rua marcava 11º. Outro 10º. E um mais friorento me mostrou 7º. Acho que esse último exagerou um pouco. Fui durante o trajeto de casa para o parque ouvindo Raquel Yamagata no som do meu carro. Eu estava de tênis, bermuda, camiseta e blusa.


Acordei muito cedo naquele dia. Sai de casa com o céu ainda escuro. Estava com vontade de correr logo pela manhã. Não sou atleta. Poetas são sedentários. Poetas são seres desregrados. Poetas são loucos que não acreditam em nada mais importante que o amor. E eu, poeta, nunca cuidei de mim, mas, apenas, das mulheres que amei.


Quando cheguei ao parque o dia começava a amanhecer. Os pássaros acordavam uns aos outros com seus cantos. Iguais a mim, poucas pessoas naquela hora. A cidade ainda tinha sono. E quem acredita que São Paulo não para nunca deveria caminhar no Parque do Ibirapuera às 6h00 de um domingo frio.


Eu pisava na grama molhada de orvalho e me desviava das árvores com a sutileza de quem se desvia dos pensamentos ruins numa madrugada natalina. Eu estava pensando no amor que não me dei ao longo de todos esses anos. E pensava se todas as mulheres que já passaram em minha vida se lembravam de meu nome.


Na verdade, acreditava que elas até se lembrassem. Talvez não tanto quanto eu me lembrava delas, mas o suficiente para fazer brotar um sorriso, se não na face, pelo menos na alma. E quem se esqueceu de mim durante todo esse tempo não foi outro que não eu mesmo. Esqueci de fazer por mim as coisas mais banais e, também, as mais complexas que um dia pensei.


Atravessei a pista de cooper e toquei com a mão esquerda em um Eucalipto antigo que deixava tombar suas folhas e cascas sobre a terra, semeando assim o futuro. Parei e observei umas formigas andando rápido pela terra úmida em busca de abrigo ou de algo mais que uma floresta para viver. Observei aquelas formigas por vários minutos. Quando levantei os olhos e olhei à minha volta, algo aconteceu.


Naquela gelada manhã de domingo uma garota de cabelos pretos, rosto de traços marcantes, não mais que 1,55m, vestindo uma calça e blusa de malha azul marinho, deixando a gola de uma blusa rosa aparecer próximo ao pescoço e com um tênis bem sujo, daqueles que deixam os pés totalmente à vontade, me olhou nos olhos e sorriu.

- Parece que essas formigas não sentem frio, não é?
- O que você disse?

Eu fiz não entender o comentário dela porque precisava de mais alguns segundos para pensar.

- Eu disse que essas formigas ficam vagando por aí e parecem não sentirem frio em nenhum instante.
- Ah, verdade. Mas também todas elas estão usando cachecol, né?
- Usando o quê?
- Cachecol. Você não está vendo?
- Como assim?
- Estou brincando com você. Foi uma brincadeira.
- Ah, tá. Agora eu entendi.
- Meu nome é Flávio. E o seu?
- O meu é Daniela.
- Prazer, Daniela.
- Prazer, Flávio.
- Que frio faz hoje. Você deveria estar dormindo essa hora, Daniela.
- Eu tenho marido feio, então saio da cama muito cedo.
- Ah, você é casada?
- Não, não sou. Foi só uma brincadeira.
- Pelo visto a gente não está conseguindo entender as brincadeiras um do outro, não é mesmo?
- Deve ser por que ainda não faz nem cinco minutos que a gente se conheceu, né?
- É. Deve ser isso.
- E você, por que está acordado tão cedo nesse frio?
- É que eu tenho 11 filhos e quando dá cinco horas da manhã eles acordam e não me deixam mais dormir.
- Você está brincando, né?
- Estou. Acho que a gente está começando a se entender.

E nesse instante demos risadas gostosas naquele domingo que apenas começava.

(Continua na próxima semana)

domingo, 24 de maio de 2009

Mulheres: não sejam homens!



Pensei de supetão no título desse texto. Mas acredito que se Woody Allen ou Domingos de Oliveira fossem refletir sobre o mesmo tema, eles, com certeza, vomitariam o mesmo título. O mundo mudou muito, Sr. Fábio de Lima. Não canso de repetir isso para mim mesmo, todos os dias. Algumas coisas mudaram para melhor e outras para pior. Não questionemos os fatos, não agora, caro leitor amigo. Para pior eu poderia citar um milhão de exemplos. Para melhor eu não me lembro de nada, no exato momento, mas lembraria se o Natal já tivesse chegado. Papai Noel faz a gente enxergar o mundo sempre mais bonito.


Semana retrasada estive comendo uma pizza com três amigas. Era véspera de feriado e não tínhamos pressa de chegar em casa. Chovia muito em São Paulo. O trânsito estava todo parado. E a gente jogando conversa fora na mesa de um restaurante. Só eu de homem na mesa. E minhas amigas filosofando sobre namoros e casamentos. Elas dizendo o quanto casamento não presta e todas essas coisas que as mulheres se acostumaram a dizer nos tempos recentes. Atualmente muitas mulheres fogem do casamento assim como o diabo sempre fugiu da cruz.


Eu, perplexo, não queria discordar de minhas amigas. Eu só queria entender o que aconteceu para as pessoas pensarem assim. É óbvio que antigamente a mulher casava por amor e tornava-se, muitas vezes, dependente do marido, infelizmente. Mas as mulheres conseguiram, com o passar dos anos, uma valorização pessoal e profissional que não tinham antigamente – embora merecessem desde sempre. Isso fez que a mulher pensasse na utilidade de um marido como a mesma utilidade de um vibrador, tão somente. A mesma não, o vibrador não ronca nem deixa a tampa do vaso sanitário levantada – portanto, o vibrador é mais útil e melhor comportado. Se eu concordo com essas teorias? Vamos adiante.


Há quem diga que se casamento fosse bom não necessitaria testemunhas para comprovar o fato. Outras pessoas dizem que morar junto basta e toda a liturgia que envolve um casamento em igreja não passa de mera formalidade ou bobagem pura. Olha, veja bem, eu tenho as minhas dúvidas, mas vamos adiante. Namoro também já é visto como algo ultrapassado por muita gente, incluindo muitas das mulheres que conheço. Ficar é tão mais fácil e cômodo. Então, para que ter um compromisso sério com uma pessoa quando se pode ficar com duas ou três ou mais e ser feliz do mesmo jeito – pensam algumas pessoas e, talvez, você pense assim também, caro leitor amigo.


Eu sou um entusiasta e fiel defensor da felicidade. Acredito que o casamento faça parte disso. Mas respeito os que pensam o contrário. No entanto, o que me deixa com uma pulga atrás da orelha é que nossos discursos, a favor ou contra o casamento, estão muito coerentes, muito pragmáticos, muito bem argumentados e, desde que me conheço por gente, felicidade e amor não têm toda essa lógica que cuspimos com palavras. A gente nunca sabe direito por que ama tal pessoa – simplesmente ama-se e pronto. Então, naquela mesa de restaurante, escutando minhas amigas falarem como homens ou, pelo menos, como o pensamento machista que sempre boa parte dos homens defendeu peremptoriamente – fiquei e ainda fico confuso. Não sei onde concordo e onde discordo de tudo isso.


O amor tornou-se um sentimento vingativo nas últimas décadas. Existe até as pessoas que matam e colocam a culpa de sua fúria no amor. Algumas traem e dizem que o fizeram por amor ao próprio namorado (a) ou esposo (a). Perceba, caro leitor amigo, que meu texto de hoje não tem uma coerência entre as idéias, entre os argumentos defendidos ou expostos. Note que eu não sei dizer o que está certo ou errado no amor, nos namoros e, ou nos casamentos. Entenda que essa falta de lógica não é própria de mim, como escritor, nem de você, como leitor. O que está acontecendo aqui tem a ver com o tipo de assunto que estamos a pensar. Eu não tenho respostas convincentes e minhas amigas, sábias, mulheres independentes, bonitas, inteligentes e cultas, também não têm. Você que me lê agora é a favor ou contra o casamento? Vamos adiante e encerremos, em breve.


Mulheres: não sejam homens! pode ser uma crônica ou um livro ou um filme ou tudo isso. Sentimento, seja de amor ou ódio, é algo que o ser humano não entendeu ainda. Talvez por isso o sentimento ainda seja algo tão mágico. Mágico sim. Você não concorda? Vamos adiante. Eu só sei de uma coisa – falando agora como homem e não como um "contador de histórias" – nós homens sempre fomos muito insensíveis e tolos. Mesmo os homens com mais sensibilidade têm uma dificuldade tremenda de dizerem o que verdadeiramente sentem. Portanto, mulheres – minhas amigas ou não – não sigam nosso exemplo.


Mulheres, quando o assunto for amor, sejam como sempre foram. Vocês nunca estiveram erradas. Nós, homens, que sempre fomos tolos ao ponto de achar que amor era sinônimo de feminilidade. Amor é humano e todo ser humano deveria amar do instante que acorda ao instante que dorme. Sem pausas e sem nenhum tipo de porém. Namoro e casamento fazem parte do amor. É bom ou ruim? Não sei. Nem cabe a mim julgar, nem a você e nem a ninguém. Naquele dia, do restaurante, das minhas amigas filósofas, depois que mais ouvi que falei, como sempre, fui embora sonhando com o dia em que homens e mulheres não disputarão nada, mas compartilharão tudo.

sábado, 23 de maio de 2009

Pai de família



Você, caro leitor amigo, assistiu ao documentário Super Size Me – A Dieta do Palhaço, de 2004? Se não assistiu ainda, assista. Mas, apesar de uma das minhas paixões na vida ser o cinema, minha história de hoje não tem nada a ver com a Sétima Arte. Eu nem estou num momento legal para falar de filmes. Na verdade, hoje eu não queria falar de nada e nem queria falar com ninguém – mas sentei na frente do computador e vamos lá.


Ontem foi segunda-feira, 25 de maio de 2009? Não, não foi. Ontem foi sexta-feira, 22 de maio de 2009. Enquanto escrevo esse texto, o relógio me mostra serem 10h00 e o calendário me mostra ser sábado. E ontem eu entrei às 21h15 na famosa lanchonete do palhaço para fazer um lanche. Eu tinha acabado de fazer uma merda na minha vida e estava com dor de cabeça, triste e com fome. Acho que um sintoma nada tinha a ver com o outro – mas eu estava com os três.


Uma fila imensa. Qualquer um na minha situação teria desistido. Eu não desisti. De repente acontece o fato. Ele estava três metros e trinta e sete centímetros distante de mim. Era um jovem senhor de uns 40 anos de idade e derrubara duas bandejas no chão. Caíram os lanches, os refrigerantes e os sorvetes. Caíram também dois copos de vidro que eram brindes. E o jovem senhor carregava, pendurado ao pescoço, um filho de uns dois anos de idade. A cena foi ridícula e, ao mesmo tempo, patética. Escrevendo objetivamente, foi muito engraçado e, ao mesmo tempo, muito triste.


Vamos aos fatos engraçados: a lanchonete estava lotada. Boa parte da clientela era adolescente. Todo mundo olhou para aquele homem de quase 1,90m, gordo, e que lembrava muito o personagem do desenho infantil Sherek. Sim, caro leitor amigo, ele era a cara e o corpo do próprio Sherek. Ele estava se dirigindo à mesa segurando duas bandejas lotadas de coisas e mais o filho pendurado no pescoço. Óbvio que não ia dar certo. Então, quando derrubou tudo aquilo no chão, pelo menos 50% dos clientes da lanchonete não conseguiram conter as risadas.


Além disso, quando ele derrubou tudo não falou absolutamente nada. Ficou parado com os olhos esbugalhados e a boca aberta. Seu filho pendurado ao pescoço (o que aquela criança estava fazendo ali eu não sei) também esbugalhou os olhos e ficou com a boca aberta. E quem, assim como eu, olhou para a mesa que estava sentada a esposa do Sherek, a viu com os olhos esbugalhados e a boca aberta. Toda a cena era extremamente ridícula. Ou seja, quem não deu uma única risada estará mentindo ao dizer que não teve vontade.


Vamos aos fatos tristes: o jovem senhor era um pai acompanhado de seu lindo filho e de sua amada esposa vivendo um momento gostoso, em família. Mas esse homem, que nunca saberei o nome e nem a sua história, apesar de estar me apropriando de um fato de sua vida para fazer literatura, sentiu-se humilhado e envergonhado na frente de filho, esposa, e demais presentes. Ele ficou durante todo o tempo, depois do acontecido, sem olhar para o rosto de ninguém. Ele se sentia muito mal. Era evidente isso.


Um rapaz que estava na fila tirou a criança do pescoço do jovem senhor para que ela não chorasse – visto que parecia bem assustada. O jovem senhor levou as bandejas com batatas ensopadas de refrigerante para a mesa. Colocou uma batata na boca para disfarçar o constrangimento. Voltou para o local do incidente e pegou o filho das mãos do rapaz. Disse obrigado sem olhar para ele e voltou para a mesa. Entregou à esposa, colocou outra batata na boca e voltou lentamente à fila enorme para recomeçar tudo de novo.


Eu vendo tudo aquilo não sabia como ajudar. Pensei em dizer que se ele fosse direto ao balcão dariam todos os lanches para ele, de novo, e sem cobrar nada – mas eu não tinha certeza se poderia ser assim mesmo ou não. Então, silenciei. O jovem senhor ficou ali na fila, totalmente sem graça, e sem olhar para o rosto de quem quer que fosse. Até que, minutos depois, outro rapaz preocupado com o que tinha acontecido chegou para o jovem senhor e falou para ele ir direto ao balcão e pedir tudo de novo – sem pagar nada – pois ele tinha a nota fiscal e todos viram que ele não consumiu nada.


O jovem senhor disse obrigado sem olhar para o rapaz e foi ao balcão explicar o inexplicável. Os atendentes prepararam todo o seu pedido, novamente, com total respeito e atenção, e o jovem senhor, aos poucos, foi recobrando seu respeito próprio e seu semblante de pai de família. A humilhação que sentiu foi se esvaindo e quando ele se dirigiu novamente à mesa, carregando uma bandeja por vez, e com todo o cuidado, eram nítidos, nos olhos de esposa e filho, a admiração e o carinho por um pai de família admirável.


Eu, vencida a fila, segurei minha lágrima que teimava em brotar do olho esquerdo e fiz o meu pedido mostrando o número 1 com o dedo indicador, e sonhando com o dia em que serei um pai de família também. Não sei se tão íntegro e admirável como o Sherek, mas querendo acertar sempre – assim como ele.

domingo, 17 de maio de 2009

"Ninguém sabe o duro que dei"


Sábado à tarde fui ao cinema. Sim, caro leitor amigo, eu vou ao cinema à tarde – dificilmente vou à noite. Costumo usar a noite para dormir. Sei o que a maioria vai pensar: coisa de velho! Bem, se de velho ou não, meu costume é ver filmes durante o dia e dormir durante a noite. Gosto assim e dane-se a oposição!


Fui assistir ao documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei. Alguém no Brasil não sabe quem foi Wilson Simonal? Com toda a certeza do mundo! Os mais velhos – que foram jovens nos anos 1960 – sabem muito bem quem foi aquele cantor negro, alto, de voz aveludada, cheio de ritmo e metido a branco, como muitos diziam. Já quem nasceu depois dos anos 1960, quando muito, pode ter escutado falar alguma coisa sobre um “pilantra” chamado Wilson Simonal.


O fato é que nos anos 1960 Wilson Simonal era um cantor famoso no Brasil e notório no exterior. Ele era rico, bonito, se vestia bem e tinha um papo que fazia qualquer pessoa – fosse homem ou mulher – se encantar com aquele artista brasileiro, que era exemplo do pobre que venceu na vida. Ele chegou lá no alto.


Até que um dia, no começo dos anos 1970, Wilson Simonal, por uma série de circunstâncias, foi apontado como homem de direita – artista ligado ao exército brasileiro e, principalmente, dedo duro – que entregava os colegas artistas de esquerda aos militares. Vivíamos uma época difícil de ditadura. Ou você era de direita ou de esquerda, não havia centro.


Foi nessa mesma época, e não por acaso, que Wilson Simonal descobriu que não estava tão rico como pensava, muito pelo contrário. Sua situação financeira era difícil diante dos gastos que constantemente ele tinha para manter aquele status de ricaço. Os ventos que conduziam a vida de Wilson Simonal estavam mudando e aquilo era só o começo dos problemas que o levaram ao ostracismo, ao alcoolismo e à morte.


Wilson Simonal passou, a partir dos anos 1970, a ser uma das pessoas mais odiadas do Brasil. Na verdade, não sei dizer se era ódio, mas, com certeza, era nojo. Sim, caro leitor amigo, o Brasil tinha nojo de Wilson Simonal. E foi assim por muitos anos. Nem o boteco da esquina queria aquele dedo duro, filho de uma puta, para cantar. Wilson Simonal não era mais cantor e sim ex-cantor. Ele era um passado vergonhoso para o País, na cabeça de um monte de gente – de um monte de gente importante, pelo menos.


Isso me faz lembrar o início da República no Brasil. O tempo em que fizeram de tudo para que Dom Pedro II, um dos homens mais inteligentes e cultos que o Brasil teve em mais de 500 anos de história, fosse visto como um velho bobão que dormia sentado e não tinha pulso firme para lidar com ninguém que o rodeava. Sim, Dom Pedro II que, em sua época, fez do Brasil um País respeitado no mundo todo. Bem, mas essa é outra triste história brasileira e meu negócio aqui, hoje, é falar de Wilson Simonal.


Durante mais de 20 anos, a mídia brasileira e os próprios artistas jamais sentaram para escutar as explicações de Wilson Simonal. Ninguém se interessou em averiguar o seu lado da história. Julgaram ele culpado e ponto final. E Wilson Simonal foi morrendo lentamente, entre uma dose e outra de álcool, entre a vergonha e a humilhação de ser quem ele era, mesmo que aquilo não fosse vergonhoso para ninguém.


Wilson Simonal morreu de cirrose hepática, derivada do alcoolismo, no ano 2000. Na época, já era meio consenso que ele nunca tinha sido do time dos militares assassinos – um dedo duro ou coisa que o valha. Mas o tempo já era escasso e ninguém mais queria saber de Wilson Simonal, nem ele mesmo. O Brasil é assim. O Brasil sempre foi assim. E agora, mesmo com os filmes, com os livros, e toda a teoria que se possa criar para redimir os fatos – ninguém saberá mesmo o duro que deu Wilson Simonal, com todas as virtudes e todos os defeitos, para ser Wilson Simonal. Ninguém!

domingo, 10 de maio de 2009

Gratidão




A gratidão talvez seja, das virtudes menos importantes creditadas ao ser humano, a mais importante virtude. Saber agradecer chega quase a ser um dom, beira o divino. Em minha vida nunca cansei de agradecer pessoas. Mas, confesso que a Deus nunca fui de agradecer. Achava que a ELE não precisava. Deus é camarada. Deus é o cara. Poxa, ele sabe que sou agradecido – então para que ficar enfatizando isso? Era assim que eu pensava, antigamente.


Bem, o ser humano é estúpido por natureza, caro leitor amigo. Ele precisa tomar umas sacudidas da vida para perceber sua insignificância e saber agradecer a Deus, ou seja lá qual nome tenha uma força especial controladora do céu e da terra. Depois dos apuros, você começa a conversar com Deus com mais jeitinho. Sua empáfia perde importância. Seus valores são revistos e você começa a conversar com ELE com mais humildade e respeito.


Nessa vida todo mundo sonha mais ou menos com as mesmas coisas. Saúde é vital. Dinheiro é necessário. Amor é imprescindível. Alguns negam essa terceira vertente, mas todo mundo precisa do amor para sobreviver – da mesma forma que se precisa de água e comida. E eu venho conversando mais com Deus de uns três anos para cá. Assim, tenho me tornado um cara mais paciente com as desventuras da vida e mais persistente com meus objetivos.


Na verdade, sempre fui um ser humano paciente. Sempre fui uma pessoa calma. Eu, desde pequeno, tento ser uma pessoa boa com as coisas que faço e com as pessoas que me relaciono. Mas, quando algo não dava certo eu reclamava com Deus. Eu falava com ELE que aquilo não estava certo e que eu só me dava mal etc. Eu era um filho chato que acha que pode tudo e se algo não dá certo coloca a culpa nos pais, no meu caso, em Deus.


Agora tenho procurado fazer a minha parte. E, ao invés de ficar reclamando com ELE, eu o agradeço todo dia. Obrigado meu Deus por ter me dado saúde hoje. Obrigado meu Deus por ter me dado a oportunidade de ter sentado ao lado daquela garota linda na hora do almoço. Obrigado meu Deus por ter emprego. Obrigado meu Deus por ter amigos. Obrigado meu Deus por ter alguns inimigos também, afinal eles nos forçam a crescer. Obrigado, obrigado e obrigado.


Meu texto hoje está piegas? Será que o Fábio virou crente, deve estar pensando você, caro leitor amigo. Mas não é nada disso. É que escrever bem para mim é um dom artístico. Acredito que ELE tenha me dado esse dom. E eu, mesmo agradecendo um monte de coisas na minha vida, ultimamente, não ando agradecendo o fato de ter nascido com os pensamento e os sentimentos na ponta de uma caneta. Esqueço de agradecer isso. Mas hoje me lembrei. Hoje meu texto não passou em branco. Meu carinho a todos, principalmente a ELE, obrigado, obrigado e obrigado – e até a próxima semana.

domingo, 3 de maio de 2009

Linhas tortas



Escrever um livro foi ideia que tive, pela primeira vez, em 1997. Na época, eu estava com 21 anos. Foi numa viagem ao litoral paulista, refletindo sobre algumas coisas que aconteciam na minha vida, naquele momento e desde sempre, que resolvi escrever um romance. A ideia inicial era falar das opções que fazemos na vida e das consequências dessas opções para nós mesmos e para as pessoas que convivem conosco.


Em primeiro lugar, resolvi colocar no papel um resumo, em poucas linhas, umas 20, do que eu queria com o livro. Eu imaginei um livro inteiro – princípio, meio e fim – em 20 linhas. Depois escrevi umas cinco páginas do livro e parei. Sim, caro leitor amigo, eu o engavetei, o esqueci por vários anos. Um dia, insatisfeito com inúmeros projetos que comecei, na minha vida, e parei quando eles nem estavam ainda na metade, resolvi voltar ao livro. Escrevi outras cinco ou dez páginas e parei.


Somente em 2005 voltei minhas atenções novamente ao livro. Revisei o que estava escrito, modifiquei tudo, acreditando estar mais madura minha forma de escrever, e depois escrevi umas 20 páginas e parei. Em 2008 voltei ao livro e escrevi mais umas 20 páginas e parei novamente. Nessa passagem de 2008 para 2009 refleti sobre tudo que fiz na minha vida até então, no lado profissional e pessoal, principalmente. Eu dei uma encarada no espelho da vida e perguntei a mim mesmo o que queria.


Depois de repensar tudo, resolvi terminar coisas inacabadas na minha vida. Decidi que me afastaria para sempre de algumas coisas, sem olhar para trás. Decidi que iria de encontro a outras coisas e terminá-las, independentemente do que isso trouxesse como consequências para a minha vida e para a vida das pessoas que estão perto de mim. O livro foi uma dessas decisões de ir até o fim.


Minha meta agora é terminar meu primeiro livro até o final de 2010. E ele estará terminado até lá. No entanto, estou aqui pensando por que adiamos tanto algumas coisas em nossas vidas. Parece que temos medo de tomar decisões. Protelamos ao máximo. Por que tanto medo? Quem nos condicionou assim? Que futuro teremos tendo medo de nós mesmos? Que “doce desespero” é esse quando desviamos os olhos do nosso próprio olhar...? Penso que minhas linhas tortas ou não precisam de um iminente fim. É chegada a hora.