
Se entrevistar é uma arte, não sei...! Mas, já conheci entrevistadores e entrevistadores – se me entende, caro leitor amigo. A faceta mais fácil e rápida de um entrevistador é ser condescendente com o que o entrevistado fala. Apresentadores de auditório fazem muito isso. Eles perguntam o que o entrevistado quer responder. E concordam com o que o entrevistado responde. E admiram sua resposta. E elogiam. E sorriem. E só faltam bater palmas. Às vezes, nem isso eles faltam fazer.
Há quem diga que esta é uma postura errada de quem entrevista. Eu não apoio e nem condeno quem entrevista assim. Acredito que cada entrevistador deva ter seus objetivos. Se seus métodos levam a eles, então a entrevista foi boa. Se os resultados de seus métodos não agradam o próprio entrevistador, então a entrevista foi ruim. Assim, de uma forma simplista. Este é meu raciocínio prático quanto à qualidade de uma entrevista.
Minha primeira entrevista foi ainda na faculdade, quando fui até a casa de um músico chamado Nenê. Ele foi o baixista de uma banda brasileira que fez muito sucesso nos anos 1960/70, chamada Os Incríveis. A banda estourou nacionalmente a partir do movimento musical Jovem Guarda. Aliás, minha entrevista era sobre a Jovem Guarda. Eu não me portei mal, embora ache que faria um pouco diferente se a entrevista fosse hoje. Faria diferente sim...!
Lembro agora de outra entrevista que fiz e achei determinante para formar meu estilo de entrevistar. Fui, ainda cursando a faculdade, à TV Bandeirantes entrevistar o diretor de TV, Wilton Franco, na época diretor de um programa chamado Brasil Verdade. Em determinado momento ele colocou em dúvida o significado de uma palavra que usei durante a entrevista e se aborreceu comigo ou, pelo menos, com a forma que me expressei em relação ao programa que ele dirigia. Chamei-o de popularesco.
Outra entrevista marcante, nesse começo de carreira, foi com o diretor de cinema Anselmo Duarte, que até hoje detém o maior prêmio já ganho pelo cinema brasileiro, a Palma de Ouro em Cannes, em 1962, com o filme O Pagador de Promessas. Lembro-me que ao final da entrevista, feita em seu apartamento na cidade de Salto, interior de São Paulo, ele convidou a mim e a um amigo, que se passava como meu fotógrafo na ocasião, para comermos um macarrão com ele, visto que já era hora da janta. Recusamos, mas este convite também me ficou na memória.
Por último, ainda recordando do tempo que eu entrevistava tendo como veículo o próprio jornal da faculdade, lembro do executivo de TV, Ivan Isola. Este ficou tão nervoso com uma colocação que fiz durante a entrevista que chegou a esmurrar a mesa. Eu, incrédulo com aquela atitude, lhe pedi calma e o adverti sobre o perigo daquele nervosismo para o seu coração. Até hoje não sei o que meu entrevistado achou de tal comentário, mas o fato foi que ele acalmou-se.
Ao longo da carreira, entrevistei políticos, médicos, artistas, economistas, esportistas, empresários, comerciantes e uma infinidade de gente com maior ou menor notoriedade. Minha maior estratégia sempre foi deixar o entrevistado tranquilo. Eu sempre deixei claro que estou ali para conversar com ele. Porque sempre foi isso que fui bom em fazer: contar e ouvir histórias. Talvez este seja meu maior Dom. Eu converso com o entrevistado, converso, converso e converso. Ao final, ele foi entrevistado.
Só tem um detalhe que não abro mão na conversa que tenho com meu entrevistado. Ele fala muito mais que eu – afinal ele é o entrevistado. Mas o domínio da situação eu não abro mão. Eu o levo para onde eu quero na entrevista. Eu vou e volto nos assuntos quantas vezes achar necessário, não tenho pressa, tenho objetivos. Eu não sou inimigo do entrevistado. Enquanto estou na sua frente sou o melhor amigo dele de todos os tempos. Eu quero que ele confie em mim e me dê uma boa entrevista, somente isso. Eu o ajudo a me ajudar. E jamais subestimo sua inteligência – jamais superestimo também. Afinal, estamos apenas conversando.
Ontem assisti ao filme “O Desafio – Frost contra Nixon”. O filme é sobre a entrevista de um apresentador de TV, sem cacoete jornalístico, David Frost, com o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, depois de deixar a presidência por causa do escândalo político Watergate, em 1972. É uma entrevista exclusiva e sem precedentes de importância feita por alguém que não estava preparado para fazê-la, mas que se prepara durante a própria entrevista – visto que ela foi gravada em diferentes datas. Ao assistir este filme me atentei para algo que já percebi no tempo da faculdade, mas pouco falo a respeito: eu amo entrevistar e penso que entrevistar é, sim, uma arte.
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