terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Escrevo, logo existo




José andava pisando devagar nas pedras lodosas daquela mata fechada que circundava o Rio dos Inocentes. Ele havia conhecido o rio por intermédio de uma ex-namorada, cinco anos atrás. Gostou do lugar e, mesmo tendo terminado o namoro, virou um frequentador assíduo daquele pedaço de mundo. Com o tempo, ali virou seu refúgio em momentos difíceis da vida. E aquele era um desses momentos. Fazia pouco mais de 24 horas que ele havia enterrado sua mãe.


Quando tinha 11 anos de idade, José leu um livro chamado O rato não quer morrer. Gostou muito do livro, porque embora fosse literatura juvenil (José gostava de ler livros de adultos) aquele livro questionava vida e morte – assuntos metafísicos e filosóficos de grande importância, em sua humilde opinião de menino. José gostava disso. Ele gostava de tentar entender o que algumas pessoas desistiam com o passar do tempo.


Agora ele estava ali. Era somente José, o rio, a mata e as lembranças de sua mãe. Para alguns, aquilo era pouco. Para outros, aquilo era muito. Para José, aquilo era tudo. O rapaz, com 27 anos e um diploma de psicologia guardado na gaveta, trabalhava de sol a sol, como carpinteiro, para ter uma vida digna para ele e sua mãe. Havia morado e trabalhado dois anos de forma clandestina nos EUA, onde arrumou dinheiro para abrir uma pequena carpintaria, em São Bernardo do Campo, ABC paulista.


Foi com essa carpintaria que José e sua mãe passaram a viver de forma um pouco mais confortável – depois de muito sofrimento da mãe, como doméstica, e dele próprio, como bancário, pagando faculdade, e vivendo precariamente na difícil tarefa de ganhar o sustento num país de desigualdade social extrema como sempre foi o Brasil. José, ainda jovem, achava estar no caminho certo. Sua mãe lhe apoiava incondicionalmente, mas um enfarto fulminante deixou José sozinho com seus sonhos.


Então, José olhou para cima – mirando admirado aquela árvore centenária que tantas vezes lhe serviu de abrigo na hora do choro. O coração apertado. A garganta com gosto de sal. Aquela gigante de raízes múltiplas e de tronco robusto superara a barreira dos 100 anos, mas Maria, sua querida mãe, ela não. Maria falecera aos 49 anos e nunca mais ele teria seu colo como abrigo e proteção. E nunca mais era muito tempo. Homem crescido, encostado na árvore, procurando vida, José só encontrou forças para dizer: obrigado, mãe!


Fábio olhou para a tela do computador e viu mais uma página escrita do início de seu quinto romance. Brincou consigo em voz alta: alguém tem que escrever nesse país! Levantou-se da cadeira e foi se aprontar para ir à casa de seus pais. Era domingo e sua mãe lhe prometera aquela macarronada com frango que ele tanta gosta. Pensou que um pudim de leite condensado, como sobremesa, também cairia muito bem. Pensou, por fim, que a vida é gostosa de ser vivida, apesar das agruras.

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